sábado, 22 de dezembro de 2018

SÓ UM TRAGO


Foi no último dia de trampo antes do recesso, sexta-feira anterior àquele Natal.  Sem trânsito algum, cheguei mais cedo no centro. Passei por uma banquinha de jornal e vi aquele cigarro free me chamando (havia parado de fumar há uns três meses, creio) e pensei: por que não? Dia propício este para matar a saudade e exorcizar o ano.

Pedi um solto e segui meu trajeto.

Adentrei a Praça da República, pouco movimentada nesta hora, e notei que um imenso feixe de luz rasgava espaço entre as árvores e iluminava um círculo bem à minha frente. Entrei no círculo e olhei para o alto, sentindo o astro-rei vagarosamente adentrar em todos os meus poros sedentos, e cansados ...

... e pensei: obrigado, Cosmos! Este ano foi de fraturar todos os ossos, mas você, Sol, faz valer cada segundo que erro e rastejo sobre este planetinha enfadonho: obrigado, Universo!

Fiquei ali tragando meu cigarro em completa epifania, sentindo os fios da Beleza e de todo o Sentido-da-vida se juntarem e me revelarem seu rosto mais transparente, mais iluminado, mais meu.

Eis que surge um sujeito mal-encarado e me rouba de mim-mesmo:

- Ei, tem um cigarro?

Respondo:
- Tenho não, comprei-o solto.

Não satisfeito:
- Então deixa eu dar um trago neste aí.

Replico:
- Mas já está no filtro ...

O puto emenda:
- Então enfia essa porra no cu!

Claro que desci do meu cósmico salto e falei para ele vir enfiar se fosse Homem! O sujeito deu no pé e eu o chamando para a briga, xingando-o com todas as dez maldições capitais de todas as infernais escrituras! ...

... Ah, bem-feito para mim que não pude ser cristão o bastante e oferecer o último pedaço de pão - no caso, um trago - para o infeliz e desejoso filho-de-deus. Também não passei no teste quando, ao invés de dar a outra face, cerrei os punhos para o renegado filho-da-mãe. Senti-me reprovado em todos os testes divinos, ouvindo aquela sirene "peeeeeeeeeeeen" vindo do céu, a indicar que tirei zero, mais uma vez. 

Contudo, sai dali totalmente revigorado, nervos e músculos a fio, praguejando os céus, chamando Deus para a briga e agradecendo ao Sol que já começava a torrar o dia: valeu, Universo!



quarta-feira, 24 de outubro de 2018

ALICE NO PAÍS DA FAMÍLIA DE BEM


- Oi, Alice, como você tá linda, boa pra ser estuprada hoje.
- Ai, para, fala isso só pra me agradar.
- Que nada, te estruparia aqui mesmo.
- Seu bobo, aqui não pode, estão olhando... E o caso do seu primo político, o quê que deu?
- Ah, a polícia invadiu sua casa e o executou ali mesmo. Bem feito, né. Caixa dois é coisa de bandido.
- Mas nem o torturaram?
- Claro que não, hoje não fazem mais isso. Imagina quanta pessoa deixou de morrer e só foi torturada. Esse foi o nosso erro do passado, né.
- Ah sim, perdiam muito tempo com essa história de tortura. Se é bandido, tem que matar logo.
- Como o caso do seu irmão... Foi um acidente, mas foi melhor assim, né.
- Pois é, todos já sabiam que ele tinha essas perversidades. Melhor um irmão hetero morto que um irmão gay vivo, né.
- Nem me fala, gosto nem de pensar nisso... Minha vizinha que se ferrou, sabe? Foi num tal quilombola aí e se envolveu com um cara que pesava umas 70 arrobas. Levou pra casa e nada. Nem pra procriar servia.
- Que horror! E o que ela fez com ele?
- Fez nada não, só o jogou pra fora e disse a verdade, que ele não prestava pra nada. Além da cor, que já não é boa, né.
- Ha ha ha, seu senso de humor é ótimo. Te amo.
- Fiquei sabendo que ele ficou muito mal e foi parar nas ruas. Um a menos naquela comunidade mimimi que só busca privilégios, né. Agora tá até recebendo ajuda do governo, o Bolsa Ração, mas não é custo nosso não, nem pensar, são doações dos restos de empresas alimentícias. Bom para os empresários que carregam nosso país nas costas, pois além de não gastarem com o descarte, ainda conseguem abatimentos no imposto com essa doação.
- Ainda bem que temos gente de bem, empresários e governos que se preocupam até com animais, né.
- Sim, Alice, demorou mas chegamos lá.





quarta-feira, 25 de abril de 2018

MÚSICA, LITERATURA E CERVEJA

A antologia A Última Canção, organizada por Willian Delarte e Luciano Portela, conta com doze contos desenvolvidos por escritores contemporâneos a partir de um mesmo tema: a música. Cada autor, a convite dos organizadores, escolheu uma canção a seu critério para criar um conto. A regra era basicamente não ter regra alguma. O resultado foi um passeio pela história da música nacional e internacional, contando histórias de amor em cenários tipicamente urbanos e com músicas que vão de Odair José à Arnaldo Baptista, Helmet a artistas mais consagrados como Chico Buarque, Gilberto Gil e Tom Zé.

O lançamento do livro será no dia 28/04/18, a partir das 19h, no delicioso espaço Patuscada, na Vila Madalena.   

Serviço:
Lançamento da antologia A Última Canção (Editora Patuá)

Autores:
Vera Helena Saad Rossei / Ni Brisant / Janaina Calaça / Samuel Malentacchi / Diogo Dias / Camila Passatuto / Marcia Barbieri / Heitor Nunes / Fernanda Soares / Nathalí Macedo / Luciano Portela e Willian Delarte

Onde:
Livraria, bar & café Patuscada
Rua Luís Murat, 40. Vila Madalena São Paulo/SP.

Quando:
Dia 28/04, das 19h às 23h.

Quanto:
A entrada é gratuita e o exemplar estará à venda ao preço de catálogo da editora (aceita cartões de débito e crédito).


quinta-feira, 9 de novembro de 2017

WILLIAM WAACK: ENTRE OS SACIS E AS FADAS



O Brasil é um moinho de mitos forjados pelas elites históricas, criado para servir à manutenção de seus privilégios e perpetuação do Poder. Valores como Propriedade (ou Posse), Tradição e Família foram e continuam sendo eufemismos dessa palavra Poder.

O primeiro mito já começa em 1.500. Não houve descoberta alguma, houve invasão de uma terra que já existia e aniquilação física e cultural de seus habitantes. Essa vontade de aniquilação perpetua do cerne da cultura de nossas elites, essencialmente branca, que ainda hoje, em maioria no Congresso, tenta tirar com sanha o pouco da terra que sobrou aos índios.

Tentaram, desde o início, emplacar o mito de que nossos habitantes primeiros eram preguiçosos para o trabalho, por isso menos dignos dessas terras e desse país que demarcaram sobre o nome daquilo que também extinguiram, o pau-brasil. Até hoje muitos têm essa ideia racista dos índios, transferida para os caboclos, os ribeirinhos e os caipiras paulistas, por exemplo.

Outro mito foi a paradisíaca, pacífica e fantástica, quase bíblica, miscigenação dos povos, raças e culturas, que promoveu a tolerância, a receptividade, a alegria de viver do povo brasileiro. Não, fuja mil quilômetros desse mito. O Coelho da Páscoa é mais crível que isso aí. Somos um dos povos que mais se assassina, uma polícia que mais mata, e por trás desse sangue, com um pouquinho de lupa, verá sempre um viés de classe, gênero, opção sexual e cor, camuflado ou não, deslocado ou não.

Outro, entre tantos outros, é o mito de que somos libertários do ponto de vista sexual, da autonomia dos corpos, sugerida pela mítica do carnaval, da sensualidade do corpo da "mulata", da mulher brasileira, do “malandro brasileiro bom de conversa e de cama”. Nada disso. Estamos mais para tapados, conservadores corolas do que qualquer outra coisa. Qualquer nuance diferente disso é luta e resistência da massa que segura a pirâmide. Veja nossos representantes atuais. Não te representam? Talvez a melhor resposta seja que representam sim, boa parte, a “melhor parte”, a parte mais forte, a parte que manda, uma parte que  há centenas de anos se acostumou a ficar velada, eufemizada, higienizada como tática de perpetuação frente às demandas progressistas e humanistas da história mundial.

Grande mito também se instaura com a Independência, cercada de gritos míticos em rios míticos, gnomos, fadas, unicórnios e princesas míticas. Daí veio a República, outro mito; a libertação dos escravos negros, mais um mito; a democracia representativa, o mitão que hoje mostra toda a sua cara de farsa.

Quando cai a máscara racista de um William Waack, por exemplo (https://youtu.be/3MtVFtp1iBI)
, cai a máscara de todo um país.

Também cresci cercado de piadas racistas por todos os cantos. Não, não sou negro, não faço a ideia da dor de ser negro nesse país. Faço sim, ideia da alegria de os ser, pois aos negros e sua cultura, que tanto carrego entranhado em mim,  devo a vida.

Não se iluda, vão argumentar que foi uma piada interna, brincadeira, que o cara é um profissional respeitável & blá, tentar dar aquela  sabonetizada no nosso racismo histórico e culturalmente intrínseco na vertente dessa casta de Poder que, de forma transversal, atinge a todos que nela se espelha. Agora, imagine dois currículos na mesa desse sujeito, um de cara preta, outro de cara pálida. Qual vai levar a vaga? Percebe porque toda a tevê é branca? Porque negros na novela só servem para alegrar a ala pobre e servir brancos na Casa Grande? Imagina os diretores dessa corporação. Imagine os diretores de marketing de todas as empresas desse país. Imagine a cor de todos. Imagine o esforço que foi e é até hoje, a todo esse Poder instituído, simular uma aparência  que não é a nossa.

O espelho do país está quebrado. E esses cacos, movidos pela força das redes de resistência que se unem, das vozes de resistência que se encontram, virtualmente ou não, é uma das maiores revoluções em curso. Não há mais espaço para babacas. Gritem, esperneiem, queimem bonecas, batam panelas! Os dias da babaquice estão contados. A História faz a curva ali. Vê? Aos otários de plantão só restarão a farda dos otários.


E eu sou mais nós.



sábado, 24 de setembro de 2016

ENCRUZILHADA

    
    A vida é um pé no saco, só vale mesmo uma boa história. Veja o caso do blueseiro Robert Johnson que, sem nenhum dom, cedeu a alma ao diabo numa encruzilhada para tocar guitarra como só Ele. Ficou um ano fora, por aí. Quando voltou era outro, nunca mais errou um acorde. Tornou-se  lenda e um dos mais influentes músicos de todos os tempos. A história é intrigante, é verdade, e pensar que ele ficou estudando durante um ano inteiro é estragar a história, manchá-la demais de vida real pé no saco. Eu mesmo comprei minha alma pra poder escrever.


    Mas essa é outra história.




(imagem do filme "A Encruzilhada" - 1986)

quinta-feira, 11 de junho de 2015

ZOOM


Imagine-a como Caetano a viu na fotografia, ainda coberta de nuvens,  acanhada, bela, dama de neve numa seda azul. Dê mais zoom e veja as ranhuras dos continentes, pássaros sobre o mar, o verde que surge a  desbotar o cinza da lente. Dê mais zoom e veja montanhas, um bioma perfeitamente equalizado, a cadeia cósmica da vida. Dê mais zoom e toque a água, beba-a, banhe-se nela. Dê mais zoom e sinta as cores, o cheiro das flores, a beleza de  cada bicho em seu lugar. Dê mais zoom e veja o Homem. Imagine-o parte disso tudo, como Lennon imaginou, e comece a pensar a Política a partir daí, dando zoom pra trás, até a seda azul.





(foto de satélite da NASA)



terça-feira, 31 de março de 2015

A VIOLEIRA


Há ficção demais na vida para ficarmos reféns de sua imitação. Nesta tarde uma louca, não se sabe como, adentrou o portão da empresa e o travou, ficando entre este e uma porta mais à frente, presa num quadrado de quatro metros quadrados. Eu, que trabalho na mesma empresa, mas no escritório da casa ao lado, fui o escolhido para redimir aquela gente.
- Você tem que nos salvar! Ninguém, nenhum homem aqui está com coragem de abrir a porta. Ela está descontrolada!, falou-me o telefonema.
Fui lá. Notei que havia esparramada na calçada uma blusa rota de lã, bolorenta, e quando me aproximei do portão o que vi foi um ser que, de ágil e feroz, mais parecia personagem foragida de algum apocalipse zumbi. Meio corcunda, capengante, aquela senhora não fazia ideia de onde estava. Destravei com a senha e abri o portão.
- Senhora, tudo bem? Já pode sair... Aquela blusa é sua?
- Sim, sim, disse-me ternamente, com um lindo riso sem dentes. É que eu a esqueço sempre, sou muito esquecida, sabe? Esqueço tudo, sempre.
- Está tudo bem, vamos.
Acompanhei a velha até a calçada e retranquei o portão, ao passo que, de dentro, a porta se abria com o mais novo corajoso da empresa, o qual recebeu apenas minha negativa de cabeça, em desolação.
Eu sou muitas pessoas destroçadas, dizia um verso de Manoel de Barros que, desde que li neste mesmo dia pela manhã, agarrou-se a mim, latejando alguns  pedaços que não voltam. Percebi que voltara para minha sala com os pedaços da louca, seu  cheiro de fezes, suor e urina, com tudo que ela tinha de humano e desesperador. Mas o surpreendente estaria por vir.
Fim de expediente. Lua imensa no céu. Quem encontro na calçada? Sim, a louca. Passei por ela sem notar que alguns pedaços, os mais sutis, escorriam-me pelas pernas. Minhas mãos tremiam, suavam. Eram muitos pedaços. Do portão surgiu outro corajoso, que não teve coragem de abrir a porta nem mesmo quando ela não estava mais lá. Indaguei-o. O que houve, por que não saíram? Ele me respondeu que as mulheres estavam gritando e que a velha também não falava coisa com coisa, poderia ter uma arma, uma  faca, vai saber... Sim, vai saber, respondi. Ela continua ali, apontei. Ele tapou o nariz, olhou para a  mancha oval no chão e, balançando a cabeça, concluiu que ainda por cima ela mijou na entrada. E seria melhor já ir... Até amanhã, tchau. Tchau, até amanhã.
Voltamos a ficar a sós, eu e a velha.  Ela permanecia lá, de costas,  sentada bem à minha frente.  Nós e nossos pedaços. Não, eu não conseguia partir. Não era justo apenas deixá-la ali. Fui andando lentamente para perto da louca que, inquieta, mexia-se como se o chão fosse uma cadeira de balanço. Nas mãos, uma viola imaginária.
- Senhora... Ei, senhora, está tudo bem?
- Sim, meu filho, tudo bem.
- A senhora tem casa?
- Sim, moro com meu marido, ele já vem me buscar.
- E onde ele está?
- Ali na frente... Ó lá, pulando no fogo! Somos do fogo, sabia? Nos apresentamos sempre juntos.
Olhei na direção dos seus olhos risonhos e mesmo sem o ver, o vi profundamente. E era lindo mesmo, aquele jeito louco dele dançar no meio do fogo. Não me contive, ri o riso mais criança, mais aberto que já tive na vida. Um pedaço triste de magma me caia da retina.
- Ah, é? E onde vocês se apresentam?
- Em muitos lugares, temos muitos lugares. Neste ano foi Lollapalooza, mas a gente vai pra todos os lugares, todos. Somos do exército do grande Deus do fogo, nunca perdemos uma batalha, sabia?
- Claro que não, boto fé. E a senhora está com fome?
- Não, comi muita lasanha. 
- E vai ficar por aqui?
- Meu marido vai vir me buscar. Sabia que ele brinca com o  fogo? Olha lá! 
- Incrível, muito incrível!
Fiquei por alguns segundos olhando a dança do marido imaginário, rindo com ela num  êxtase de pedaços soltos e prece combinada, silenciosa.
Deixei-a lá com a viola, a noite era uma criança. Quando foi que a noite envelheceu? No caminho de casa fui recolhendo pedaços que voltavam sem dor. Mais um dia de trabalho se recolhia no horizonte. A vida não é trabalho, pensei, é a possibilidade do encontro. No meio de tanta gente doida, encontrei a violeira do fogo, a mais real entre  todos os exércitos! Ah, abençoados sejam os loucos, sejam os poucos que fabricam suas próprias portas e adentram sem encargo no reino dos céus.




(foto: Ricardo Laf)



terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

LEMBRETES HISTORIOGRÁFICOS PARA O TERROR:


1 - Falta imprimir nos livros de História, no capítulo das Cruzadas, da Santa Inquisição ou de toda a Idade Média, o termo: "práticas terroristas de fundamentalismo católico".

2 - Destacar que as ações de Israel contra a Palestina configuram "práticas terroristas de fundamentalismo judaico".


3 - Grifar, em qualquer passagem sobre Ditaduras Socialistas, o termo: "práticas terroristas de fundamentalismo ateu".


4 - Reiterar que Nazi-fascismo são "práticas terroristas de fundamentalismo evolucionista", e o evolucionismo, sabe-se, é a base de todo o Espiritismo, ainda que este  não tenha sido até agora cunhado por uma casta política detentora (ou usurpadora) de poder, o que pode ser, em termos sociológicos, apenas questão de falta de tempo e ocasião.


5 - Negritar que, pela reinterpretação bíblica ao seu gosto  apropriada, e pelos desdobramentos sociais intrínsecos, o Capitalismo disseminado com o programa  "American Way of Life" carrega em si traços imensuráveis de ditadura e, consequentemente "prática terrorista de fundamentalismo protestante".


6- Rodapear que "Terror", ao que parece, é o status quo vigente no mundo  desde que o Homem saiu das cavernas, fisgado (dentro de si)  pelo mundo das ideias. É, pois, o instrumento pelo qual buscamos aquilo que verdadeira e profundamente amamos, ou seja: "fundamentalismo platônico na prática".


quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Entreletra: SONIA BISCHAIN


Nascida e criada na Vila Brasilândia e arredores, Sonia Bischain desde muito cedo pegou gosto pela leitura, influenciada pelo pai sindicalista que, bem informado, exibia sempre seus jornais pela casa. Viciou-se, e na adolescência era chamada pelos amigos de  “maquininha de ler livros”. Aos 15 anos, em um grupo da igreja católica, conheceu a “Teologia da Libertação”, iniciando sua atuação social que, aliás, sempre fez parte de sua história de lutas. Anistia, volta dos exilados, fim da censura, da ditadura e das torturas, “diretas já” e criação de um partido do povo trabalhador, fizeram parte da sua agenda política que, como se vê, caminha paralelamente a da redemocratização do país. Sempre atuante com entidades filantrópicas na região, ajudou também a criar o Partido dos Trabalhadores na Brasilândia e Freguesia do Ó. Mãe do Fernando, da Flavia e do Yan, pegou gosto pela escrita e  pela arte de editar, pintar e desenhar. Em 1996 se voltou à fotografia e de lá pra cá também não parou mais de registrar seu olhar atrás da lente. Sempre incentivando a leitura aos “meninos da Brasa”, como diz, foi surpreendida ao ser convidada pelos mesmos para participar do Sarau da Brasa nos idos de 2008. O sarau cresceu, fortificou-se, publicou quatro antologias próprias ao longo desses anos e a ajudou a lançar seus dois primeiros livros: poesia (em conjunto com Bárbara Lopes) e um romance. Seu terceiro livro, e segundo romance, “Vale dos Atalhos” foi lançado em 2013 pela editora Sundermann. E sobre ele, e sobre tudo, é que se deu este nosso belo bate-papo textual.


ENTRELETRA: 

Seu pai parece ser uma figura marcante em sua vida. Fale dele, dos espelhos.

R: Meu pai é uma pessoa com um forte senso ético e moral, de uma dignidade e honestidade enraizadas que florescem em sua conduta ao longo dos seus 82 anos. É alegre, encanta qualquer conversa com suas histórias e seu jeito animado de encarar a vida e reproduzir os fatos por ele vivenciados, ao mesmo tempo é paciente, calmo, observador. Gosto de salientar que ele também é um bom ouvinte. Filho de espanhóis (talvez por isso seu interesse em política), que vieram ao Brasil fugindo da 1ª guerra mundial. De família muito pobre, perdeu o pai onze dias após seu nascimento, estudou somente o antigo curso primário (ou seja, 4 anos), seu interesse pela leitura o tornou um autodidata.

Na época da ditadura você chegou a sofrer (ou presenciar) abusos de violência policial? Fale dessas lembranças.

R: Bem, acho que a primeira violência que vi, eu devia ter uns 7 anos, foi uma execução, em frente de casa. Ali tinha um descampado onde as crianças jogavam futebol entre outras brincadeiras, e depois do descampado tinha um brejo com taboas. Chegou um carro com policiais e um homem. Gritaram para o homem correr e quando ele obedeceu os policiais atiraram, o homem caiu no brejo em meio às taboas. Os policiais não me viram. Algum tempo depois presenciei mais uma cena idêntica. Você ouviu dizer que a Brasilândia foi um local de desova humana durante a ditadura? Pois foi, acontecia de corpos serem encontrados nos rios e riachos da Brasilândia, essa violência era contra presos políticos e comuns (no caso dos presos comuns era praticada pelo esquadrão da morte).

Em 1976/77, recomeçaram as manifestações de rua, organizadas primeiro por estudantes, depois por outras categorias também. Eu sempre participava das manifestações (estudantes, bancários, professores, metalúrgicos), me lembro de uma de padeiros, que achei muito original, eles saíram de avental e chapéu de mestre-cuca, pelo centro de São Paulo; as pessoas nos prédios jogavam papéis picados para saudá-los) e logo vinha a repressão, com suas bombas, cassetetes, cavalos, cães. Não muito diferente do que tem acontecido nas manifestações hoje em dia. Já fiquei "cercada" dentro da PUC e na igreja da Sé. Também já presenciei "infiltrados" provocando brigas e quebra-quebra para dar a deixa pros policiais agirem contra nós. Apareciam uns caras de barba e jeans (para se parecerem com os manifestantes, mas eram pessoas que nunca tínhamos visto antes) e tumultuavam os atos. Nos anos 80 (quando Maluf era governador) começaram a aparecer uns caras estranhos (a gente chamava de trombadões) e quebravam as vitrines das lojas no Centro Velho. Ali era complicado, pois as ruas são estreitas e não tinha muito por onde fugir. Um grande amigo meu foi preso algumas vezes por participar de greves, ele era bancário. A gente tinha um esquema: todos os dias ele me telefonava (no meu serviço, a gente não tinha telefone em casa) num determinado horário, se ele não me ligasse eu já acionava D. Paulo e seus advogados, pois certamente meu amigo estaria preso.

Teve uma época em que eu era seguida em todos os lugares aonde ia por 2 agentes do DOPS, acredito que era mais intimidação, pois muitas vezes eles faziam questão de que eu percebesse que estavam me seguindo. Eles foram algumas vezes onde eu trabalhava, em horário que eu estava almoçando, e faziam perguntas sobre mim às pessoas que trabalhavam comigo, em uma ocasião procuraram minha família, e amedrontaram minha mãe, nesse dia, quando cheguei do trabalho, minha mãe estava fazendo uma grande fogueira com todos os papéis que eu guardava: jornais tipo Pasquim e Movimento, poesias que escrevi, folhetos, panfletos, boletins que eu editava sobre o bairro, etc.
Também no evento que ficou conhecido mundialmente como "Pancadaria do Ó" (deu nos jornais internacionais também), o povo da Freguesia (a maioria eram moradores da Brasilândia: Jd. Carumbé, Vista Alegre, Damasceno, Penteado, Jd. Guarani, Terezinha) apanhou de policiais à paisana. Era o Governo Itinerante do Paulo Maluf. A população se organizou em comissões para fazer suas reivindicações, como creche, pronto-socorro, hospital, posto de saúde) e foi recebida a cassetetes, soco-inglês, pauladas. Na ocasião, fiz uma faixa onde se lia: "Olhe nossas/vossas favelas" — o evento ia acontecer no Largo do Clipper, fomos de ônibus até o local —, e ao descer do ônibus, os agentes da repressão, tomavam as nossas faixas e nos batiam com o pau de nossas próprias faixas. Exigimos uma CPI para apurar as agressões e o fato ficou mundialmente conhecido. Com nossa mobilização, conquistamos o Pronto-Socorro, na av. João Paulo I, a Creche e o Posto de Saúde na Vila Penteado. O Pronto-Socorro ganhou o nome de 21 de junho (dia da pancadaria), o fato ocorreu em 1980, hoje na placa em frente, se lê "Pronto-Socorro Freguesia do Ó", parece que censuraram o nome original.

Outra violência policial revoltante, nos anos 80, que presenciei algumas vezes, era contra os camelôs. Eu trabalhava na rua Álvares Penteado, e na São Bento tinha muitos camelôs, a maioria deficientes físicos, mesmo assim, os policiais agiam com violência contra os camelôs, vi muitos deficientes físicos caírem na rua (de suas cadeiras de roda) empurrados por policiais que vinham recolher suas mercadorias. As pessoas que trabalhavam nos prédios, vaiavam os policiais e jogavam água, cinzeiros, clips e outros objetos nos policiais.

Na periferia, em verdade, a violência policial nunca acabou, pelo contrário. Você acredita estar havendo, em plena democracia, século XXI, um “extermínio de negros e de pobres” orquestrado por grupos militares? Acha legítimo o uso deste termo?

R: Sem dúvida, não há como fechar os olhos a esta realidade, todas as pesquisas confirmam: a maioria das vítimas da violência são jovens negros, pobres e de baixa escolaridade. São vítimas da discriminação, do racismo e principalmente da violência policial (apesar de muitos policiais serem de famílias negras e pobres). Na Brasilândia a presença de grupos de extermínio, infelizmente, é ainda uma cruel realidade.


Sei que a resposta será difícil, mas em qual arte que pratica você se vê melhor expressada?

R: Realmente, difícil. Para a pintura, uso pouco do meu tempo, mas é um prazer imenso quando consigo me dedicar a essa arte. Bem, eu gosto muito de escrever, é quando eu paro pra olhar pra dentro de mim e me redescubro. Amo as palavras, elas batem dentro, profundo, me causam certa comoção e me fascinam.

Mas, como diz o dito popular, "a ocasião faz o ladrão". Vivo por aí roubando imagens. Sempre com uma máquina na mão, me encanto com formas e cores. Veja só, não consigo escolher, me identifico nas três artes, todas elas para mim são poesias.



O romance “Vale dos atalhos”, tal qual um documentário, parece pintar um quadro geo-político e cultural da nossa região (Brasilândia): criação, evolução, resistências e permanências. O que a motivou escrevê-lo e, se puder mensurar, quanto tem de ficção e quanto tem de realidade em tudo o que o cerca?

R: Você tem razão ao falar em quadro geo-político e cultural; a ideia primordial foi fazer um retrato histórico de nossa região, eu tracei uma linha imaginária que vai da minha casa, na Vila Penteado, até o Pico do Jaraguá, "caminhando" por dois rios da região. Somei lembranças que tinha de alguns acontecimentos com pesquisa, partindo dos tempos da colonização portuguesa. A gente encontra alguns dados (poucos), pesquisando a história da Freguesia do Ó, um dos bairros mais antigos de São Paulo. A Brasilândia nasceu dentro desse quintal (periferia da Freguesia) séculos depois. Pesquisei sobre as populações indígenas, africanas, sobre a procura do ouro no Pico do Jaraguá, as pedreiras, a fábrica de cimento de Perus e sua história de lutas. Quanto à transformação ambiental usei mesmo minhas lembranças para descrevê-las. Fiz também uma pesquisa sobre a imigração espanhola no Brasil (minha descendência paterna), para entender melhor as histórias que meu pai contava de sua família, e outros grupos de imigrantes são citados também. Acho que a formação da população, a geografia, a flora e a fauna originais da região, é a parte real contida no "Vale", os personagens são fictícios, criei famílias e histórias que envolvem essas famílias, e criei as lendas, embora usando elementos do nosso imaginário popular, o medo, o mágico, as crenças. As lendas são para dar um certo conforto, um alívio, às muitas dores e dificuldades desses personagens.


Qual importância você dá ao Sarau da Brasa na sua vida e para toda a comunidade? Fale dos momentos que mais te marcaram nesses 6 anos de existência.

R: Primeiro, pensar em um sarau dentro de um bar, na periferia, já é uma ideia genial. O bar é um lugar público, aberto, onde qualquer pessoa pode entrar. Quebrar a tradição de local frequentado por homens, e contar com a presença feminina e até de crianças, tempos atrás pareceria inimaginável. Ter uma biblioteca (montada pela doação e boa vontade dos frequentadores) onde quaisquer pessoas, mesmo as que frequentam o bar e não o sarau, podem emprestar livros é outra coisa fabulosa. Incentivar a leitura, a criação literária (com melhores resultados no sarau do que nas salas de aulas). Ser um espaço aberto onde os grupos culturais podem apresentar e compartilhar sua arte: música, teatro, grafite, artes plásticas, fotografia, dança, enfim, todas as artes cabem no sarau e são bem recebidas.

Então, para mim, que sempre fui tão envolvida com arte, e que por diversos motivos fiquei muitos anos produzindo muito pouco, ter esse espaço (o Sarau da Brasa) foi e é algo muito importante. Sempre digo que a arte não é algo para competir e sim para compartilhar. Com essa porta aberta, conheci e pude trocar experiências com outros grupos e saraus de São Paulo e de outros estados do Brasil, chegamos até em outros países, por exemplo, com a antologia "Saraus", onde participo com o poema "Rua de Trás, traduzido para o espanhol "Calle de atrás", publicada em maio na Argentina pela editora Tinta Limón, compilação de Lucía Tennina e, em outubro deste ano de 2014, a mesma será publicada também no México.


Para encerrar, diga profundamente o que quiser.

R: Willian, o que quero agora é agradecer o seu convite e louvar a iniciativa do seu projeto "Entreletras", que só faz crescer o movimento literário projetado, principalmente, a partir do ano 2000 e que vem invadindo os espaços marginalizados das grandes cidades, dando uma perspectiva, trazendo conhecimento e inserção social aos jovens e moradores dos nossos bairros periféricos. Grata.



ALGUNS POEMAS E FOTOS AUTORAIS:


JUVENTUDE

Assim como o fogo,
aceso
no centro da roda
de amigos,
a cachaça generosa
dividia seu calor
expulsava o frio,
o medo
e as angústias.
O futuro
parecia
próximo e belo.


SENTINELAS DA PERIFERIA

Os sentinelas deixaram seus postos
Professores e alunos foram dispensados
Apagaram-se as luzes
A população se recolheu
Os ônibus deixaram de circular

Fogo!!!
Disparos!
Medo! Violência! Mortes!

Silêncio...

Choro e velas na periferia.





















BIBLIOGRAFIA, LINKS, CONTATOS:

Rua de Trás (poemas), publicados pelo Sarau Poesia na Brasa, em 2009.
Nem Tudo é Silêncio (romance), publicado pelo Sarau Poesia na Brasa, em 2010.
Vale dos Atalhos (romance), publicado pela Editora Sundermann, em 2013.
Poemas diversos publicados nas quatro antologias do Sarau Poesia na Brasa,  Antologias do Sarau Perifatividade, Antologia Saraus - Movimento/ Literatura / Periferia / São Paulo (editora Tinta Limón)
Publicação de fotos em revistas, livros, sites e blogs diversos.

www.facebook.com/soniabischain
soniabischain@hotmail.com




sexta-feira, 19 de setembro de 2014

LEIA-SE: "COMO ELEFANTES AO MAR"


Um romance de “pé-na-estrada” no melhor estilo “beat”. Um romance cru, seco, sem meias palavras. Um romance sem moralismos. Um romance para se ler numa tacada e levar pelo resto da vida. A saga de Diego, deslocado de sua vida burocrática para incursão num "projeto de puteiro", será só o início? Até onde esses elefantes nos levarão? Ao mar? Às putas que nos pariu? A nós mesmos? "Como Elefantes ao Mar", de Rodrigo Freire (Editora Patuá, 2013), não pretende ser mais do que é: leitura obrigatória!

Abaixo o poema-homenagem que, à época, escrevi, tomado por sua leitura súbita e, com muita honra, em primeira mão.


SEDE

“para Rodrigo Freire nadar
             ou musicar”

ando todo perdido
sem  tempo pra proust
sem saco pra barthes
com machado roendo
meus vermes.

tá osso não ler freud
nem tocar no joyce
deixar rosa mudo
marx falando sozinho

e sartre com essas paredes ...

fico cevando cervantes
pra só catar coelho:
uma água no joelho
e outra que não me lava.

ando tonto
broxa na rede
puto sem dentes

um tanto quanto
Ensimesmado

(alimentando elefantes brancos
na porra de um mar de náuseas
que só me causa sede)



Compras diretamente com o autor, pelo email "melacocci@gmail.com", ou no site da Editora Patuá.